Óculos de sol aumentam o risco de escaldão? E como tratar uma queimadura solar
- Vitor Pratte
- 12 de mar.
- 5 min de leitura
Atualizado: há 8 horas
Circula nas redes sociais a ideia de que usar óculos de sol aumenta o risco de queimadura solar, porque impediria os olhos de sinalizar ao corpo que está sol. Não é verdade. A produção de melanina na pele é desencadeada localmente pela radiação ultravioleta que atinge a própria pele, e não por um sinal visual. Não usar óculos de sol não protege a pele, e expõe os olhos a radiação que causa cataratas, degenerescência macular e cancro da pálpebra. Uma queimadura solar leva três a sete dias a resolver-se e trata-se com arrefecimento, hidratação e analgesia — bolhas extensas ou febre exigem observação médica.
Os óculos de sol aumentam o risco de queimadura solar?
Não. O mito assenta numa confusão sobre como funciona o bronzeado.
A versão que circula diz que os olhos detetam a luz solar e enviam ao cérebro um sinal que ativa a produção de melanina, e que os óculos escuros bloqueariam esse sinal, deixando a pele desprotegida.
O que acontece na realidade é diferente. A melanina é produzida pelos melanócitos da pele em resposta direta à radiação ultravioleta que atinge a própria pele. É um mecanismo local, de defesa contra o dano no ADN das células cutâneas. Não depende dos olhos.
Existe de facto uma via neuro-endócrina que responde à luz através da retina, ligada ao ritmo circadiano e à produção de melatonina. Mas essa via não regula a pigmentação cutânea de forma clinicamente relevante, e nenhum estudo demonstrou que usar óculos de sol aumente a queimadura.
Acresce que a melanina, mesmo quando produzida, oferece uma proteção equivalente a um fator solar baixo. Bronzear-se não é proteger-se: um bronzeado é a marca visível de dano já ocorrido no ADN.
Para que servem realmente os óculos de sol?
Protegem estruturas que não se regeneram.
Cristalino. A exposição ultravioleta acumulada é fator de risco estabelecido para cataratas, uma das principais causas de perda de visão a nível mundial.
Retina. A radiação contribui para a degenerescência macular relacionada com a idade.
Superfície ocular. Causa pterígio — o crescimento de tecido sobre a córnea, mais frequente em quem trabalha ao ar livre — e queratite actínica, uma queimadura da córnea que dá dor intensa e sensação de areia horas após exposição forte, típica de neve e mar.
Pálpebras. A pele periocular é das mais finas do corpo e é local frequente de carcinoma basocelular. As pálpebras representam uma proporção significativa dos cancros cutâneos da face, e são das zonas onde menos gente aplica protetor solar.
Que óculos de sol escolher?
A cor e a escuridão da lente não indicam proteção. Uma lente escura sem filtro UV é pior do que não usar óculos: a pupila dilata na penumbra e deixa entrar mais radiação.
O que exigir:
UV400 ou “100% proteção UV” — bloqueia radiação até 400 nanómetros, ou seja, UVA e UVB
Marcação CE, obrigatória no espaço europeu
Categoria de filtro adequada ao uso
Lentes grandes ou com proteção lateral, porque a radiação entra pelos lados e reflete na face interna da lente
As categorias, de 0 a 4:
Categoria 0 — lentes muito claras, uso decorativo ou interior. Proteção mínima
Categoria 1 — luminosidade baixa, dias nublados
Categoria 2 — luminosidade média
Categoria 3 — a mais comum e a adequada para sol forte, praia e uso geral no verão
Categoria 4 — muito escuras, para alta montanha e glaciares. Não são permitidas para condução
Polarizados é outra coisa: reduzem o encandeamento provocado pelo reflexo em superfícies como água, neve ou asfalto. Melhoram o conforto e a nitidez, mas não acrescentam proteção UV por si só. Um óculo polarizado sem UV400 não protege.
Nas crianças, os óculos devem ter as mesmas exigências. A radiação acumulada na infância pesa no risco de toda a vida, e o cristalino da criança é mais transparente, deixando passar mais radiação até à retina.
Como curar uma queimadura solar rapidamente?
Não há forma de acelerar substancialmente a reparação, mas há como reduzir o desconforto e evitar complicações.
Nas primeiras horas: sair do sol. Arrefecer com duche ou banho de água fresca — não gelada — ou compressas húmidas, quinze minutos, várias vezes por dia.
Hidratar generosamente com um creme ou loção sem perfume, ainda com a pele húmida. Produtos com aloé vera ou dexpantenol dão alívio sintomático.
Beber mais água. A queimadura extensa provoca perda de líquidos e pode causar desidratação.
Analgesia. Um anti-inflamatório oral nas primeiras horas reduz a dor e a inflamação, se não houver contraindicação.
Não usar: manteiga, azeite, pasta de dentes, vinagre, gelo diretamente sobre a pele, nem anestésicos tópicos com benzocaína, que causam alergia com frequência. Nenhum ajuda e vários agravam.
Não rebentar bolhas. A pele que as cobre é a barreira contra infeção.
Não voltar a expor a zona ao sol até estar completamente recuperada.
Quanto tempo demora a passar um escaldão?
Depende da profundidade.
Queimadura de primeiro grau — vermelhidão, calor, dor, sem bolhas. Melhora em três a cinco dias, com descamação a partir do terceiro ou quarto dia.
Queimadura de segundo grau superficial — com bolhas. Demora uma a três semanas e pode deixar alteração de pigmentação temporária.
A descamação é normal e faz parte da reparação. Não se deve arrancar a pele que descama: deixar sair sozinha reduz o risco de mancha.
A vermelhidão pode dar lugar a hiperpigmentação pós-inflamatória, que demora semanas a meses a esbater, sobretudo em fototipos mais altos.
Queimadura solar com bolhas: quando é grave?
Bolhas indicam queimadura de segundo grau. Uma ou outra bolha numa área pequena costuma resolver-se com os cuidados descritos.
Procurar cuidados médicos se houver:
Bolhas extensas, sobretudo se ocuparem uma área grande do corpo
Febre, arrepios, náuseas, vómitos ou tonturas
Dor de cabeça intensa, confusão ou desmaio — podem indicar insolação
Sinais de infeção: pus, aumento da dor, vermelhidão que se alastra, estrias vermelhas
Queimadura na face, mãos, genitais ou grandes articulações
Queimadura em bebé ou criança pequena
Queimadura em pessoa imunodeprimida ou a tomar fármacos fotossensibilizantes
Porque é que a queimadura dá comichão?
A comichão acompanha a fase de reparação e a descamação, e resulta da libertação de mediadores inflamatórios como a histamina.
Existe uma forma intensa, por vezes chamada hell's itch, que surge um a três dias depois de uma queimadura forte e provoca comichão profunda e insuportável, mal aliviada pelos meios habituais. É desconfortável mas autolimitada, e melhora com hidratação intensiva, arrefecimento e, nalguns casos, medicação prescrita.
Comichão acompanhada de erupção em zonas expostas, sobretudo se recorrente, pode indicar erupção polimorfa à luz ou reação de fotossensibilidade a um medicamento, e não simplesmente queimadura.
O que fica depois
A queimadura passa. O dano não desaparece todo.
Cada queimadura solar aumenta o risco de cancro cutâneo ao longo da vida, e as queimaduras com bolhas na infância e na adolescência são um fator de risco particularmente forte para melanoma.
O dano acumula-se de forma silenciosa. Contribui para o fotoenvelhecimento, para as manchas e para as queratoses actínicas, que são lesões pré-malignas.
Quem teve queimaduras graves, sobretudo em criança, beneficia de vigilância regular de sinais.
Quando procurar um dermatologista?
Após queimaduras solares com bolhas, sobretudo se repetidas
Quando surge uma mancha, crosta ou ferida que não cicatriza numa zona muito exposta
Quando um sinal muda de tamanho, cor ou forma
Quando há erupção recorrente ao sol
Quando teve queimaduras com bolhas na infância — para mapeamento de sinais
Quando tem fototipo I ou II e nunca fez rastreio
A Dra. Ellene Papazis é dermatologista com especialidade reconhecida em Portugal e no Brasil, com formação em oncologia cutânea, e realiza mapeamento de sinais no Porto.
Fontes
American Academy of Dermatology — sunburn treatment and prevention
World Health Organization — Ultraviolet radiation and health
Norma EN ISO 12312-1 — categorias de filtro para óculos de sol
Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia
Artigo escrito e revisto pela Dra. Ellene Papazis, dermatologista com especialidade reconhecida em Portugal e no Brasil. Consultas no Porto.
Atualizado em 25 de julho de 2026.

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