Acne: o que causa, que tipos existem e como se trata
- Ellene Papazis

- 23 de jun. de 2024
- 6 min de leitura
Atualizado: 25 de jul.
A acne surge quando as glândulas sebáceas produzem sebo em excesso e os folículos ficam obstruídos por células mortas, criando o ambiente onde as bactérias proliferam. É a doença de pele mais comum: afeta cerca de 85% das pessoas entre os 12 e os 24 anos, segundo a American Academy of Dermatology. Trata-se com produtos tópicos, antibióticos orais, isotretinoína ou procedimentos dermatológicos, consoante a gravidade e o tipo de lesões. Quanto mais cedo se trata, menor o risco de cicatrizes permanentes.
Acne, espinha e cravo são a mesma coisa?
Não, e a confusão é frequente.
Acne é o nome da doença. Cravos e espinhas são dois tipos de lesão que essa doença produz.
Os cravos são comedões. Quando o folículo está aberto à superfície, o sebo oxida e escurece: é o cravo preto. Quando está fechado, forma-se um ponto branco sob a pele.
As espinhas são as lesões inflamadas — pápulas e pústulas — vermelhas, salientes e por vezes dolorosas. Surgem quando o folículo obstruído inflama.
Ter um cravo ocasional não é ter acne. A acne é o quadro persistente, com várias lesões e tendência a repetir-se.
O que é a acne?
A acne vulgar é uma doença inflamatória crónica da unidade pilossebácea. Quatro mecanismos concorrem para a formação das lesões: produção aumentada de sebo, alteração da queratinização do folículo, colonização por Cutibacterium acnes e inflamação.
É uma doença, não um problema estético. Estudos sobre qualidade de vida colocam o impacto psicológico da acne moderada a grave em níveis comparáveis aos da asma ou da epilepsia.
Sobre a bactéria: o Cutibacterium acnes vive normalmente na pele de toda a gente. Não é uma infeção apanhada de fora. O que acontece na acne é que o ambiente do folículo obstruído favorece a sua multiplicação e desencadeia inflamação. Por isso a acne não é contagiosa e não se transmite de pessoa para pessoa.
O que causa a acne?
Hormonas. Os androgénios estimulam as glândulas sebáceas. Explica porque a acne aparece na puberdade, porque piora na semana anterior à menstruação e porque pode surgir ou agravar-se na gravidez, com a alteração hormonal.
Genética. Ter pai ou mãe com história de acne grave aumenta a probabilidade de desenvolver a mesma forma.
Medicamentos. Corticosteroides, lítio, alguns antiepiléticos e certos contracetivos podem provocar erupções acneiformes. A relação temporal com o início do fármaco é a pista.
Doenças associadas. A síndrome do ovário poliquístico cursa frequentemente com acne resistente ao tratamento habitual, sobretudo quando acompanhada de irregularidade menstrual ou hirsutismo.
Fatores externos. Poluição, humidade elevada e oclusão mecânica da pele.
O que é a acne hormonal e como se trata?
Chama-se acne hormonal ao quadro em que a influência dos androgénios é dominante. Reconhece-se por um padrão típico: lesões inflamatórias no terço inferior da face, mandíbula, queixo e pescoço, com agravamento cíclico antes da menstruação.
Aparece sobretudo em mulheres adultas, muitas vezes depois dos 25 anos e sem história de acne na adolescência. Costuma responder mal aos tratamentos habituais para acne juvenil.
O tratamento passa por medicação com ação antiandrogénica — contracetivos combinados adequados ou espironolactona — associada a tópicos. Quando há irregularidade menstrual, aumento de pelos ou dificuldade em engravidar, justifica-se investigar a síndrome do ovário poliquístico.
Que tipos de acne existem?
Acne vulgar. A forma habitual, com comedões, pápulas e pústulas.
Acne conglobata. Forma grave com nódulos confluentes e trajetos fistulosos. Predomina em homens jovens e deixa cicatrizes.
Acne fulminante. Início súbito, com febre, mal-estar e lesões ulceradas. É rara e exige avaliação urgente.
Acne neonatal. Surge nas primeiras semanas de vida, em muitos recém-nascidos, e resolve sozinha sem tratamento. Não deixa marcas.
Acne infantil. Aparece entre os três meses e os quatro anos, ou persiste após o período neonatal. Justifica avaliação, porque pode sinalizar alteração endócrina.
Acne mecânica. Provocada por fricção e oclusão: alças de mochila, capacetes, fardas justas, máscaras.
Acne cosmética. Desencadeada por produtos comedogénicos.
Acne ocupacional. Por exposição a óleos minerais e hidrocarbonetos clorados no trabalho.
O que é a acne escoriada?
Na acne escoriada, as lesões que se veem já não são as da doença: são o resultado de as manipular. O ato de espremer, coçar ou arrancar transforma uma pápula que desapareceria em poucos dias numa ferida que demora semanas e deixa marca.
O gesto costuma ser automático, feito ao espelho e sem plena consciência, e associa-se a ansiedade ou a comportamentos compulsivos. É mais frequente em mulheres.
Tratar apenas a acne não resolve, porque a lesão principal é provocada. O tratamento eficaz combina o controlo da acne com a abordagem do comportamento, e nalguns casos beneficia de acompanhamento psicológico. Não é falta de força de vontade, e reconhecer isso costuma ser o primeiro passo.
Que lesões aparecem, e onde?
As lesões não inflamatórias são os comedões: abertos, os pontos negros; fechados, os pontos brancos. As inflamatórias são pápulas e pústulas, salientes e dolorosas. Nas formas graves surgem nódulos e quistos, e são estes que deixam cicatriz.
A distribuição segue a densidade de folículos sebáceos: face, pescoço, região anterior do tórax, dorso e ombros.
A alimentação influencia a acne?
Durante anos a resposta foi um “não” categórico. A evidência atual é mais matizada.
As guidelines da American Academy of Dermatology reconhecem associação entre dietas de alto índice glicémico e agravamento da acne. Há também dados que apontam o leite magro como fator agravante em alguns doentes, sem que o mecanismo esteja esclarecido.
O que não se confirmou: chocolate, gorduras e fritos como causa direta.
A leitura razoável é esta. A alimentação não causa acne, mas pode agravá-la em pessoas predispostas. Alterar a dieta não substitui tratamento.
E a higiene? E o sol?
Higiene. A acne não resulta de falta de limpeza. Lavar o rosto com frequência excessiva ou com produtos agressivos danifica a barreira cutânea e agrava o quadro. Duas vezes por dia, com produto suave, é o suficiente.
Sol. A exposição solar seca as lesões e melhora o aspeto durante alguns dias. Depois vem o efeito rebound, com aumento da espessura da camada córnea e agravamento da obstrução folicular. Acresce o risco cumulativo de cancro cutâneo e o agravamento das marcas pós-inflamatórias, que escurecem com a exposição.
Qual é o melhor tratamento para a acne?
Não existe um melhor tratamento universal. Existe o tratamento adequado a cada tipo de lesão, à gravidade e ao impacto na vida da pessoa — e é isso que se define em consulta.
Tópicos. Retinoides, peróxido de benzoílo, ácido azelaico, antibióticos tópicos. Primeira linha na acne ligeira a moderada. Os cremes de venda livre podem ajudar em quadros ligeiros, mas não substituem prescrição quando há lesões inflamatórias persistentes.
Orais. Antibióticos do grupo das ciclinas em cursos limitados. Contracetivos com efeito antiandrogénico ou espironolactona em mulheres selecionadas. Isotretinoína na acne grave, nodulocística ou resistente, sempre com contraceção eficaz e vigilância analítica.
Procedimentos. Peelings químicos, extração de comedões, laser e luz. Complementam, não substituem.
Cicatrizes. Microagulhamento, laser fracionado, subcisão e preenchimento, consoante o tipo de cicatriz. O tratamento das cicatrizes faz-se só depois de a acne estar controlada, e o número de sessões varia com a profundidade e a extensão das lesões — por isso o plano e o orçamento definem-se após avaliação presencial.
Os resultados demoram. Quase todos os tratamentos precisam de seis a doze semanas para se avaliarem, e é frequente haver agravamento inicial. Abandonar ao fim de duas semanas é o erro mais comum.
A acne tem cura?
A acne controla-se; não se elimina em definitivo por um ato único.
É uma doença crónica, com períodos de agravamento e de acalmia. Com tratamento adequado é possível chegar a uma pele sem lesões ativas e mantê-la assim, e a maioria das pessoas melhora substancialmente após a adolescência.
A isotretinoína é o tratamento que mais se aproxima de uma remissão prolongada: uma parte importante dos doentes não volta a ter acne significativa depois de um ciclo completo. Ainda assim, há quem precise de repetir, e a decisão é sempre clínica.
Desconfie de qualquer promessa de eliminar a acne definitivamente. Em medicina, resultados dependem de fatores individuais, e ninguém sério garante um resultado.
Como se chama o médico que trata a pele?
Dermatologista. É o médico especialista em doenças da pele, cabelo e unhas, com formação específica após o curso de medicina.
Em Portugal, a especialidade reconhecida pela Ordem dos Médicos é Dermatovenereologia — dermatologia e venereologia. Ao procurar, confirme que o profissional tem especialidade registada.
Quando devo procurar um dermatologista?
Quando surgem nódulos ou quistos
Quando já há cicatrizes ou marcas
Quando três meses de cuidados adequados não mudaram nada
Quando a acne está a condicionar a vida social ou o humor
Quando não consegue deixar de mexer nas lesões
Quando aparece de forma súbita num adulto, sobretudo com irregularidade menstrual ou aumento de pelos
A Dra. Ellene Papazis é dermatologista com especialidade reconhecida em Portugal e no Brasil, e acompanha doentes com acne no Porto, em consulta presencial e online.
Fontes
American Academy of Dermatology — Guidelines of care for the management of acne vulgaris, JAAD, 2024
European Academy of Dermatology and Venereology — recomendações europeias para o tratamento da acne
Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia
Global Burden of Disease Study — dados de prevalência de doenças cutâneas
Artigo escrito e revisto pela Dra. Ellene Papazis, dermatologista com especialidade reconhecida em Portugal e no Brasil. Consultas no Porto.
Atualizado em 25 de julho de 2026.



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