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É normal o cabelo do bebé cair? Eflúvio neonatal e quando preocupar-se

  • Foto do escritor: Ellene Papazis
    Ellene Papazis
  • 21 de nov. de 2023
  • 6 min de leitura

Atualizado: 25 de jul.

É normal os bebés perderem cabelo nos primeiros meses de vida. Chama-se eflúvio neonatal e acontece porque todos os folículos entram em fase de queda ao mesmo tempo, por volta das oito a doze semanas. O cabelo cai — às vezes quase todo — e volta a crescer entre os seis e os doze meses, muitas vezes com cor e textura diferentes. Não há nada a fazer para o evitar, e nada que se aplique acelera o processo. Preocupante é outra coisa: falhas circulares bem delimitadas, descamação intensa, vermelhidão ou queda que persiste depois do primeiro ano.


Porque é que o cabelo do bebé cai?

O cabelo cresce em ciclos: uma fase de crescimento, uma de transição e uma de queda. Num adulto, os folículos estão dessincronizados — uns crescem enquanto outros caem, e por isso a queda diária passa despercebida.

No recém-nascido não é assim. Os folículos estão todos sincronizados desde a vida intrauterina, e entram em conjunto na fase de queda. O resultado é uma queda visível e concentrada no tempo.

Contribui ainda a descida abrupta das hormonas maternas depois do parto, que mantinham os folículos em fase de crescimento.

É o mesmo mecanismo do eflúvio telógeno do adulto. A diferença é que no bebé é fisiológico e esperado.


Quando cai e quando volta a crescer?

Primeiro mês. Pode já haver alguma queda, mas o mais frequente é ainda não se notar.

Dois a três meses. É o pico. Muitos pais só reparam nesta fase, ao encontrar cabelo na almofada, no lençol e na roupa. Pode cair quase todo.

Três a seis meses. A queda abranda e começa a nascer cabelo novo, geralmente mais fino.

Seis a doze meses. O cabelo definitivo cresce, e é normal que seja diferente do de nascença — mais claro, mais escuro, mais liso ou mais encaracolado.

Doze a vinte e quatro meses. A densidade continua a aumentar. Uma criança de dois anos com cabelo ainda escasso mas sem outras alterações costuma estar dentro do normal.

O ritmo varia bastante entre bebés, e não há motivo para comparar.


O que fazer para o cabelo do bebé não cair?

Nada, e é importante dizê-lo com clareza.

Não existe champô, óleo, loção, vitamina ou suplemento que impeça o eflúvio neonatal ou o acelere. É um processo fisiológico que segue o seu curso.

Não usar no bebé: minoxidil, tónicos capilares, óleos essenciais puros, produtos com álcool ou fórmulas de adulto. Alguns são absorvidos pela pele fina do bebé e podem ser prejudiciais.

Cortar o cabelo ou rapar a cabeça não faz o cabelo nascer mais forte ou mais abundante. É uma crença muito difundida e sem qualquer fundamento — o folículo está sob a pele, e o que se corta é a haste, já morta.


E se o cabelo do meu bebé não caiu?

Também é normal.

Alguns bebés nascem com pouco cabelo e vão ganhando densidade gradualmente, sem queda perceptível. Outros mantêm o cabelo de nascença e substituem-no de forma tão progressiva que ninguém dá por isso.

A ausência de queda não indica problema nenhum. Não há uma forma certa de acontecer.


O meu bebé tem entradas ou uma zona sem cabelo atrás. É normal?

Quase sempre sim, e a localização diz quase tudo.

A zona sem cabelo na parte de trás da cabeça é o achado mais frequente. Chama-se alopécia por fricção e resulta do atrito do occipital contra o colchão, o tapete ou a cadeira — o bebé passa muito tempo deitado de costas, como deve, para prevenção da morte súbita. Resolve-se sozinha assim que começa a passar mais tempo sentado.

Não mudar a posição de dormir por causa disto. Dormir de costas é a recomendação de segurança e não se altera por motivos estéticos. Aumentar o tempo de barriga para baixo durante o dia, sempre com vigilância, ajuda e é benéfico por outras razões.

As entradas laterais costumam ser apenas o padrão de implantação do cabelo, que se torna mais visível enquanto a densidade é baixa.

O que já não é típico: falhas circulares e bem delimitadas em qualquer parte da cabeça, sobretudo se houver alteração da pele por baixo.


O que provoca a crosta láctea?

A crosta láctea é dermatite seborreica do lactente, e não tem relação com leite nem com alergia alimentar apesar do nome.

Resulta da combinação de glândulas sebáceas ainda estimuladas por hormonas maternas com a presença de leveduras do género Malassezia, que fazem parte da flora normal da pele. Aparece em placas amareladas e oleosas no couro cabeludo, por vezes nas sobrancelhas e atrás das orelhas.

Surge geralmente nas primeiras semanas e resolve-se sozinha até aos seis a doze meses.

O que fazer: amolecer as escamas com um óleo próprio para bebé antes do banho, deixar atuar alguns minutos e remover suavemente com escova macia. Lavar com champô de bebé. Não arrancar as crostas a seco.

Quando pedir ajuda: se houver vermelhidão intensa, extensão para o corpo, exsudação, mau cheiro ou se o bebé parecer incomodado. Nesses casos pode ser necessário tratamento específico, e importa distinguir de dermatite atópica ou de infeção.


Quando é que a queda de cabelo do bebé é preocupante?

Estes são os sinais que justificam observação:

  • Falhas circulares e bem delimitadas — podem indicar alopécia areata, que também ocorre em crianças

  • Zonas com descamação, vermelhidão, crostas ou pontos negros no couro cabeludo — podem indicar tinha do couro cabeludo, uma infeção fúngica que exige tratamento oral e não se resolve com champô

  • Gânglios aumentados no pescoço ou atrás das orelhas associados a falhas de cabelo

  • Queda que começa ou persiste depois do primeiro ano

  • Cabelo muito frágil, que parte facilmente, ou de aspeto anormal

  • Falhas associadas ao gesto de puxar ou torcer o cabelo

  • Atraso de crescimento, alterações das unhas ou dos dentes associados

A tinha do couro cabeludo merece nota especial: é contagiosa, frequente em idade escolar, e é muitas vezes confundida com caspa ou com alopécia areata. O diagnóstico faz-se por exame micológico.


Quando termina a queda de cabelo pós-parto da mãe?

Esta pergunta aparece sempre ao lado da anterior, e por boa razão: muitas mães perdem cabelo ao mesmo tempo que o bebé.

Durante a gravidez, os níveis elevados de estrogénio mantêm mais folículos em fase de crescimento — daí o cabelo mais denso e a queda reduzida. Depois do parto, a descida hormonal empurra todos esses folículos para a fase de queda ao mesmo tempo.

A queda começa habitualmente dois a quatro meses depois do parto, atinge o pico por volta dos quatro meses e resolve-se entre os seis e os doze meses. A densidade recupera, embora possa não voltar exatamente ao que era.

É um eflúvio telógeno, fisiológico e reversível. Não exige tratamento na maioria dos casos.

Justifica avaliação se a queda ultrapassar os doze meses, se for muito intensa, se houver rarefação visível do couro cabeludo ou recuo da linha de implantação. Nessas situações convém excluir anemia, carência de ferro, alteração da tiroide — frequente no pós-parto — e alopécia androgenética que a gravidez tenha desencadeado.


Como cuidar do cabelo do bebé

  • Lavar duas a três vezes por semana, com champô específico para bebé

  • Água morna, nunca quente

  • Escova de cerdas macias, sem puxar

  • Secar com toalha, sem esfregar

  • Evitar elásticos apertados, molas e penteados que tracionem

  • Não usar secador quente nem produtos de adulto

  • Proteger a cabeça do sol com chapéu — o couro cabeludo do bebé é particularmente vulnerável

Sobre reforçar o cabelo de uma criança: uma alimentação variada e adequada à idade é o que conta. Suplementos capilares não estão indicados em crianças saudáveis, e alguns podem ser prejudiciais.


Quando procurar um dermatologista?

  • Quando há falhas circulares ou bem delimitadas

  • Quando o couro cabeludo tem descamação intensa, vermelhidão ou crostas persistentes

  • Quando a queda continua depois do primeiro ano de vida

  • Quando a crosta láctea não melhora com os cuidados habituais

  • Quando a mãe mantém queda intensa mais de doze meses após o parto

  • Sempre que haja dúvida — em dermatologia pediátrica, observar cedo evita tratamentos desnecessários

A Dra. Ellene Papazis é dermatologista com especialidade reconhecida em Portugal e no Brasil, com prática em tricologia e dermatologia pediátrica. Consultas no Porto.


Fontes

  • American Academy of Dermatology — hair loss in children

  • European Academy of Dermatology and Venereology

  • Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia

  • Sociedade Portuguesa de Pediatria — dermatite seborreica do lactente


Artigo escrito e revisto pela Dra. Ellene Papazis, dermatologista com especialidade reconhecida em Portugal e no Brasil. Consultas no Porto.

Atualizado em 25 de julho de 2026.

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