top of page

Tatuagens fazem mal à saúde? O que a evidência mostra sobre riscos e cuidados

  • Foto do escritor: Ellene Papazis
    Ellene Papazis
  • 18 de jun. de 2024
  • 5 min de leitura

Atualizado: há 1 dia

Um estudo sueco publicado em 2024 observou uma tendência de risco de linfoma cerca de 21% superior em pessoas tatuadas, mas o resultado não atingiu significância estatística e os próprios autores o descrevem como uma associação possível, a confirmar. O que está demonstrado é outra coisa: os pigmentos da tinta não ficam apenas na pele — parte migra para os gânglios linfáticos regionais. As tintas podem conter hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, aminas aromáticas primárias e metais pesados. Não há, hoje, evidência que permita dizer que tatuar causa cancro. Há razões para escolher bem onde e com que tintas.


A tatuagem causa cancro?

A resposta honesta é: não se sabe, e a evidência disponível não o demonstra.

O estudo mais citado é de 2024, da Universidade de Lund, com registo populacional sueco. Encontrou uma taxa de incidência de linfoma 1,21 vezes superior em pessoas com tatuagens — mas com um intervalo de confiança de 95% entre 0,99 e 1,48.

Este pormenor é decisivo e quase sempre omitido: o limite inferior atravessa o 1. Em termos estatísticos, significa que o resultado é compatível com não haver aumento de risco nenhum. É uma tendência observada, não um efeito estabelecido.

Os subtipos com estimativas mais altas — linfoma difuso de grandes células B e linfoma folicular — tiveram intervalos de confiança igualmente sobrepostos ao 1.

Um estudo observacional único, com este resultado, não estabelece causalidade. Fatores como tabagismo, exposições profissionais ou estilo de vida podem explicar parte da associação. A própria universidade apresentou os resultados como uma associação possível.

O que se pode dizer com rigor: a hipótese existe, merece investigação, e ainda não há resposta.


A tinta da tatuagem vai para o sangue?

Não circula livremente no sangue, mas também não fica toda na pele — e esta é a parte que está bem documentada.

Quando a tinta é injetada na derme, as partículas maiores ficam retidas nos macrófagos da pele, o que dá a permanência do desenho. As partículas mais pequenas são transportadas pelo sistema linfático até aos gânglios regionais, onde se acumulam.

Isto observa-se na prática clínica: gânglios de pessoas tatuadas podem apresentar-se pigmentados, com a cor da tinta correspondente. Não é raro, e é conhecido dos patologistas.

A consequência prática mais relevante não é oncológica — é diagnóstica. Um gânglio pigmentado pode ser confundido com metástase de melanoma numa imagem ou numa biópsia. Convém que o médico saiba que há tatuagem na zona drenada.


O que têm as tintas de tatuagem?

A composição varia muito entre fabricantes, e é aí que está a questão real.

As tintas podem conter hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, sobretudo nas tintas pretas, que são genotóxicos e classificados como carcinogénicos. Podem conter aminas aromáticas primárias, sobretudo nos pigmentos coloridos, também com potencial carcinogénico. E podem conter metais pesados: arsénio, crómio, cobalto, chumbo e níquel.

Desde 2022, o regulamento REACH da União Europeia restringe várias destas substâncias nas tintas de tatuagem comercializadas no espaço europeu. Isso melhorou o quadro, mas não elimina a variabilidade — sobretudo em tintas adquiridas fora do circuito legal.

A pergunta útil não é "a tinta é cancerígena?" mas "que tinta é usada, e está em conformidade?"


As tatuagens afetam o sistema imunitário?

Há uma resposta imunitária local, permanente e discreta.

O organismo reconhece o pigmento como corpo estranho e monta uma resposta que nunca chega a resolver-se, porque o pigmento não é eliminável. Os macrófagos captam as partículas, morrem, e outros macrófagos voltam a captá-las — um ciclo que se mantém durante toda a vida da tatuagem.

Esta inflamação de baixo grau é a base biológica que sustenta a hipótese em investigação. Não significa que cause doença, e a maioria das pessoas tatuadas nunca terá qualquer problema por causa disso.


Quem não deve fazer uma tatuagem?

Há situações em que a tatuagem está desaconselhada ou exige avaliação prévia:

  • Psoríase, líquen plano ou vitiligo — podem surgir lesões novas sobre o traumatismo, o chamado fenómeno de Köbner

  • Tendência a cicatrizes queloides ou hipertróficas

  • Dermatite atópica em fase ativa na zona a tatuar

  • Alterações da coagulação ou terapêutica anticoagulante

  • Imunossupressão, doença oncológica ativa ou quimioterapia em curso

  • Diabetes mal controlada, pela cicatrização comprometida

  • Infeção cutânea ativa na zona

  • Gravidez e amamentação — por precaução, não por risco demonstrado

  • Sobre sinais, nevos ou qualquer lesão pigmentada

Este último ponto merece destaque. Nunca tatuar sobre um sinal. O pigmento impede a vigilância dessa lesão e pode atrasar anos o diagnóstico de um melanoma. Um bom tatuador contorna os sinais.


É normal a tatuagem dar comichão?

Nos primeiros dias, sim. Depois, nem sempre.

Durante a cicatrização — primeira a segunda semana — a comichão acompanha a formação de crosta e a regeneração da pele. É esperada, e não se deve coçar nem arrancar as crostas, sob pena de perder pigmento e ficar com falhas.

A comichão que aparece meses ou anos depois é outra coisa. Pode indicar reação alérgica tardia ao pigmento, mais frequente com tintas vermelhas, ou uma reação granulomatosa. Costuma limitar-se a uma cor específica do desenho — o vermelho fica em relevo e com prurido, e o preto ao lado não.

Comichão persistente, relevo, descamação ou nódulos numa tatuagem antiga justificam observação dermatológica.


O que não fazer depois de tatuar

  • Não arrancar crostas nem coçar

  • Não expor ao sol durante a cicatrização, e usar protetor solar depois — o UV degrada o pigmento e desbota o desenho

  • Não mergulhar em piscina, mar, banheira, sauna ou jacuzzi nas primeiras duas a três semanas

  • Não usar roupa apertada sobre a zona

  • Não aplicar produtos com álcool, perfume ou petrolato espesso

  • Não fazer exercício intenso nos primeiros dias, pela transpiração e fricção

  • Não beber álcool nas primeiras 24 horas, pelo efeito na coagulação

Sinais de alarme que exigem observação: vermelhidão que aumenta em vez de diminuir depois do terceiro dia, dor crescente, calor local, pus, febre ou traços vermelhos a partir da zona.


Quem tem tatuagem pode doar sangue?

Pode, mas há um período de suspensão temporária após a tatuagem.

A regra existe pelo risco teórico de transmissão de infeções por via hematogénea durante o procedimento, e não por causa da tinta. Em Portugal, o período de espera é definido pelo Instituto Português do Sangue e da Transplantação e deve ser confirmado junto do serviço, porque os critérios são atualizados periodicamente.

Passado esse período, e cumpridos os restantes critérios, a doação é possível. Ter tatuagens não impede ser dador.


Como reduzir os riscos

O risco de uma tatuagem está muito mais no procedimento do que na hipótese oncológica.

  • Estúdio licenciado, com condições de higiene verificáveis

  • Material descartável, aberto à sua frente

  • Tintas em conformidade com o regulamento europeu — pode e deve perguntar

  • Evitar tintas adquiridas fora do circuito legal ou tatuagens feitas em contexto informal

  • Nunca tatuar sobre sinais

  • Fotografar a tatuagem depois de cicatrizada, para comparação futura

  • Vigiar alterações: relevo, comichão persistente, nódulos ou mudança de cor

Se tem muitas tatuagens e vai fazer mapeamento de sinais, informe o dermatologista. A pigmentação dificulta a avaliação dermatoscópica das lesões nas zonas tatuadas e em redor.


Quando procurar um dermatologista?

  • Quando uma tatuagem fica em relevo, com comichão ou descamação, meses ou anos depois

  • Quando surgem nódulos ou caroços no desenho

  • Quando há gânglios aumentados na zona drenada pela tatuagem

  • Quando um sinal ficou parcialmente coberto por pigmento

  • Antes de tatuar, se tem psoríase, vitiligo, queloides ou doença cutânea ativa

  • Para mapeamento de sinais, sobretudo com áreas extensas tatuadas

A Dra. Ellene Papazis é dermatologista com especialidade reconhecida em Portugal e no Brasil, com formação em oncologia cutânea, e realiza mapeamento de sinais no Porto.


Fontes

  • Nielsen C, et al. Tattoos as a risk factor for malignant lymphoma: a population-based case-control study. eClinicalMedicine, 2024. Lund University

  • Regulamento (UE) 2020/2081 — restrição REACH às substâncias em tintas de tatuagem e maquilhagem permanente

  • European Academy of Dermatology and Venereology

  • Instituto Português do Sangue e da Transplantação — critérios de dádiva


Artigo escrito e revisto pela Dra. Ellene Papazis, dermatologista com especialidade reconhecida em Portugal e no Brasil. Consultas no Porto.

Atualizado em 25 de julho de 2026.

Comentários


  • Instagram
  • LinkedIn
  • Facebook
bottom of page