Rosácea: porque aparece, o que a piora e qual o melhor tratamento
- Ellene Papazis

- 18 de fev. de 2024
- 6 min de leitura
Atualizado: há 1 dia
A rosácea é uma doença inflamatória crónica que afeta sobretudo a zona central da face: nariz, bochechas, testa e queixo. Manifesta-se por vermelhidão persistente, vasos visíveis, sensação de ardor e, em algumas formas, borbulhas semelhantes às da acne. Não tem cura definitiva, mas controla-se bem com tratamento adequado e com a identificação dos fatores que a desencadeiam. Afeta sobretudo pessoas de pele clara, mais mulheres do que homens, e surge habitualmente a partir dos 30 anos. Quanto mais cedo se trata, menor a probabilidade de evoluir para formas mais difíceis de reverter.
Porque aparece a rosácea?
Não há uma causa única. A rosácea resulta da combinação de vários mecanismos:
Alteração vascular. Os vasos da face dilatam com facilidade e demoram a voltar ao normal. É isto que explica a vermelhidão que vai e vem, e depois deixa de ir.
Inflamação e imunidade inata. Há uma resposta inflamatória exagerada a estímulos que noutra pele não causariam nada, mediada por péptidos antimicrobianos como a catelicidina.
Demodex folliculorum. Este ácaro vive na pele de toda a gente, mas encontra-se em maior número na pele com rosácea. Não é uma infestação apanhada de fora, e a rosácea não é contagiosa.
Predisposição genética. É frequente haver familiares com o mesmo quadro.
Barreira cutânea fragilizada. A pele perde água mais depressa e fica mais reativa a produtos e ao ambiente.
Fatores externos como o sol, o calor, o álcool ou o stress não causam rosácea. Desencadeiam crises em quem já a tem.
Quais são os sintomas da rosácea?
Começa habitualmente por episódios de vermelhidão súbita — o chamado flushing — desencadeados por calor, álcool, comida picante ou emoção. Duram minutos a horas e passam.
Com o tempo, a vermelhidão torna-se permanente na zona central da face. Aparecem vasos finos visíveis, as telangiectasias. A pele fica sensível, com sensação de ardor ou picada, e reage mal a produtos que antes tolerava.
Nas formas inflamatórias surgem pápulas e pústulas, parecidas com acne mas sem comedões — não há cravos, e essa é a diferença que permite distinguir as duas.
Pode haver ainda edema facial, secura, descamação e sensação de repuxamento.
Que tipos de rosácea existem?
Rosácea eritemato-telangiectásica (tipo 1)
Predomina a vermelhidão persistente e os vasos visíveis. A pele é muito reativa, arde e pica com facilidade. É a forma mais frequente e a que mais beneficia de tratamentos com luz e laser.
Rosácea papulopustulosa (tipo 2)
Além da vermelhidão, há pápulas e pústulas em surtos. É a forma que mais se confunde com acne, e a que responde melhor a tratamento tópico e a antibióticos orais em dose anti-inflamatória.
Rosácea fimatosa (tipo 3)
Há espessamento da pele, sobretudo do nariz, onde se chama rinofima. As glândulas sebáceas aumentam e a pele ganha textura irregular. É mais frequente em homens e, em fase avançada, só se corrige com laser ablativo ou cirurgia.
Rosácea ocular (tipo 4)
Afeta os olhos, com vermelhidão, ardor, sensação de areia e blefarite. Pode surgir antes das manifestações na pele, o que atrasa o diagnóstico. É subdiagnosticada e merece atenção específica.
Existem ainda formas menos comuns: rosácea granulomatosa, rosácea fulminante e a rosácea induzida por corticosteroides.
O que piora a rosácea?
Os desencadeantes variam de pessoa para pessoa, mas os mais frequentes são:
Exposição solar — o fator número um
Calor: sauna, banhos quentes, aquecimento, cozinhar
Frio intenso e vento
Álcool, sobretudo vinho tinto
Bebidas quentes
Comida picante e condimentada
Stress e ansiedade
Exercício físico intenso
Corticosteroides tópicos na face
Produtos com álcool, ácidos fortes, mentol, cânfora ou fragrância
Vale a pena manter um registo durante algumas semanas. O padrão pessoal costuma ser mais revelador do que qualquer lista geral.
Como lavar o rosto com rosácea?
A rotina de limpeza é parte do tratamento, não um detalhe.
Lave duas vezes por dia, com água morna — nunca quente. Use um produto de limpeza suave, sem sabão, sem álcool e sem fragrância, aplicado com as mãos e não com esponjas ou escovas.
Seque com toalha, sem esfregar. O gesto de esfregar é dos que mais agrava.
Evite esfoliantes, tónicos adstringentes, escovas de limpeza e água muito quente. Se um produto arde ou pica, não é sinal de que está a funcionar: é sinal de que não deve ser usado.
Qual é o melhor creme para a rosácea?
Não existe um creme melhor em absoluto. Existem duas categorias diferentes, e convém não as confundir.
Cuidado diário, de venda livre: hidratante para pele sensível, com ceramidas, niacinamida ou ácido hialurónico, e protetor solar mineral com óxido de zinco ou dióxido de titânio, FPS 30 ou superior, usado todos os dias. Isto não trata a rosácea — mantém a barreira cutânea e reduz a frequência das crises.
Medicação tópica, sujeita a receita: metronidazol, ácido azelaico, ivermectina e brimonidina. São estas que atuam sobre a doença. A escolha depende do subtipo e do que predomina no quadro.
Um creme de farmácia bem escolhido faz diferença. Não substitui tratamento quando há lesões inflamatórias ou vermelhidão persistente.
Qual é o melhor tratamento para a rosácea?
Depende do subtipo, e é por isso que a mesma pergunta tem respostas diferentes consoante a pessoa.
Tópicos. Metronidazol e ácido azelaico nas formas inflamatórias. Ivermectina quando há componente de Demodex. Brimonidina para a vermelhidão, com efeito temporário.
Orais. Doxiciclina em dose sub-antimicrobiana, usada pelo efeito anti-inflamatório e não como antibiótico propriamente dito. Isotretinoína em dose baixa nas formas resistentes ou fimatosas.
Luz e laser. Luz intensa pulsada e laser vascular são o tratamento mais eficaz para os vasos visíveis e para a vermelhidão fixa, que não respondem a cremes.
Rosácea ocular. Higiene palpebral, lágrimas artificiais e, nalguns casos, medicação oral. Justifica avaliação oftalmológica.
Fotoproteção diária. É a medida com melhor relação entre esforço e resultado, e a que mais gente descura.
A rosácea tem cura?
Não tem cura definitiva. Tem controlo, e o controlo pode ser muito bom.
É uma doença crónica, com períodos de agravamento e de acalmia. Com tratamento adequado e evicção dos desencadeantes, é possível manter a pele estável durante longos períodos, com pouca ou nenhuma vermelhidão visível.
O que não é reversível espontaneamente: as telangiectasias já formadas e as alterações fimatosas. Essas tratam-se com laser ou cirurgia, não com cremes.
Encontrará online relatos de "como curei a rosácea". Correspondem, quase sempre, a períodos de remissão — que são reais, mas não são cura.
Os tratamentos naturais funcionam?
Algumas medidas ajudam. Outras são perigosas.
Podem ajudar: compressas frias durante uma crise, hidratantes suaves, chá verde tópico, evicção de desencadeantes conhecidos, gestão do stress. Nenhuma substitui tratamento médico quando há doença ativa.
Nunca aplicar na face: água oxigenada, vinagre, sumo de limão, bicarbonato, álcool, pasta de dentes ou óleos essenciais puros.
A água oxigenada merece nota específica, porque circula como "cura definitiva" em fóruns e redes sociais. Não cura a rosácea. É um irritante que danifica a barreira cutânea, provoca queimadura química e agrava exatamente o mecanismo inflamatório que está na origem da doença. Em pele com rosácea, o resultado é previsível: piora.
Rosácea ou acne?
Confundem-se, e o tratamento é diferente.
A rosácea não tem comedões. Não há cravos nem pontos brancos. Se houver, é acne — ou as duas coisas ao mesmo tempo, o que também acontece.
A rosácea localiza-se na zona central da face e acompanha-se de vermelhidão de fundo e vasos visíveis. Surge tipicamente depois dos 30 anos. A acne aparece na adolescência, distribui-se de forma mais ampla e afeta também o dorso e o tórax.
O erro com consequências é tratar rosácea como acne: alguns tratamentos usados na acne, sobretudo os mais irritantes, agravam a rosácea.
Quando procurar um dermatologista?
Quando a vermelhidão da face deixou de passar
Quando aparecem vasos visíveis ou borbulhas na zona central do rosto
Quando a pele arde ou pica com produtos que antes tolerava
Quando há sintomas oculares: ardor, sensação de areia, vermelhidão nas pálpebras
Quando o nariz começa a mudar de textura ou de forma
Quando a aparência está a condicionar a vida social ou o humor
A Dra. Ellene Papazis é dermatologista com especialidade reconhecida em Portugal e no Brasil, e acompanha doentes com rosácea no Porto.
Fontes
National Rosacea Society — classificação por fenótipos
American Academy of Dermatology — recomendações para o tratamento da rosácea
European Academy of Dermatology and Venereology
Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia
Artigo escrito e revisto pela Dra. Ellene Papazis, dermatologista com especialidade reconhecida em Portugal e no Brasil. Consultas no Porto.
Atualizado em 25 de julho de 2026.



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